Trabalho da Exposição Aluga-se
Texto crítico para Museum Victor Meirelles
por Rafael Campos Rocha
É sabido que o ambiente de arte em São Paulo, principalmente o ambiente ligado à pintura, pode ser fortemente repressor, ainda que contra a vontade consciente de seus principais professores e pintores (pintores esses que acabam sendo os principais professores e assim por diante). A repressão acontece pelos mesmos motivos de sempre: a insegurança com relação ao outro – e a inveja que seu entusiasmo causa -, o dogmatismo que justifica a própria incapacidade de mudar, ou mesmo a preguiça para enfrentar desafios intelectuais, sendo que na maior parte dos casos a repressão é uma projeção do aluno. O modo mais fácil de livrar-se da responsabilidade e do desafio da liberdade.
Pois bem, yara dewachter foi educada em pintura nesse ambiente, e acredito que sua pintura usa esse aprendizado para polemizar com ele mesmo até, finalmente, simplesmente superá-lo. Não se trata aqui de uma superação fálica, ou mesmo do tipo dialética (outra ferramenta para a superação de outrem, no final das contas) mas da superação por preferir o aquém dos objetivos de um grupo do que o seu além. Me explico: onde se busca a profundidade da cor, o sentido da Forma e a qualidade estética, yara contrapõe uma cor rala, uma forma arbitrária e a tal “qualidade estética”, essa sim ela supera. Dá por encerrado o assunto com uma filosofia da indiferença, que só pôde ser corretamente apreciada pela crítica atual com o advento do multiculturalismo e outras formas de democratização da arte. Em outras palavras, Yara vence o jogo recusando-se a jogá-lo, virando o tabuleiro e despejando suas peças no chão ou mesmo pelo irritante “tá, tá bom” das discussões matrimoniais. Melhor dizendo, yara propositadamente perde o jogo, demonstrando assim o absurdo de suas regras e o sem-sentido de seu podium.
Sua atitude polêmica (ainda que discreta e mesmo não-declarada) pode também ser aferida pela escolha do material: a encáustica fria- tinta óleo aplicada com uma pasta de cera e terebentina – a preferida de nove entre dez pintores paulistanos. A escolha desse material por esses artistas têm uma razão técnica, que remete, entretanto, a um modelo histórico. Por agregar à secagem rápida uma intensidade da cor, e a essa intensidade uma materialidade resultado da pasta que leva a tinta, esses artistas mantêm viva a teoria greenbergiana do evolucionismo materialista da arte (ou seja, uma arte que cada vez mais se ocupa dos aspectos materiais de sua fatura e menos aos seus temas ou motivos abstratos). A encáustica fria possibilita a esses artistas fazerem uma pintura corporificada, armada de uma interioridade, de um sentido forte e – mais importante que tudo – de uma legitimação histórica pela semelhança com grandes modelos do passado, dos quais Rotkho, Morandi e De Kooning brilham altaneiros.
Pois bem, Dewachter usa esse material de forma arbitrária, provavelmente mais impulsionada pela sua secagem rápida do que pela sua materialidade. Essa materialidade, por sua vez, (quando aparece) tem o tom randômico dos defeitos de fabricação, dos ruídos inumanos que por vezes escapam à malha tecnológica e conspurcam a face de seus produtos. Suas redes geométicas, quadrados, setas e círculos não remetem ao entusiasmo do construtivismo histórico, mas à cinematografia distópica dos anos 80, em que o ruído da máquina, feita para servir aos humanos, os supera e procura seu extermínio, como em alien, blade runner e fuga de Nova York.
Repito-me: Yara usa o material de um grupo artístico não para superá-lo, como fazem os personagens históricos, no massacre das reputações alheias. Yara usa o mesmo material para jogá-lo sobre fotografias e fotos e desenhos de outros artistas ou dela mesma. Disse jogá-lo, porque a artista não busca uma síntese entre registros diferentes. Ela aponta justamente para o fim da síntese dialética, para o fim da superação como fim último da existência do artista o de quem quer que seja. Essa mulher de nome tão estranho, meio índio, meio alemão, sequer justifica algum dos lugares comuns que se aplicam às respectivas ascendências. Felizmente. No nome, como na obra, as peças não se encaixam para a solução do problema metafísico. Antes de Wittgenstein, Yara descobriu a inutilidade de resolver esses problemas.
Currículo
exposições individuais / solo exhibitions
2009 Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew – Joinville – julho
Galeria Iberê Camargo -Gasômetro – Porto Alegre – janeiro
2008 Acervo Vivo – Sala de Exposições – Santo André – dezembro
VOTE NUA – mini xiclets – Casa da Xiclet – agosto
Seletiva Casa da Cultura – Ribeirão Preto – março
2004 Instalação Fotográfica ltinerante “Sonhos”
exposições coletivas / group exhibitions
2009 “diálogos provisórios – brancos e sujos”, exposição de Yara Dewachter e Claudio Cretti – Eden – São Paulo – junho
“Prata da Casa II” – Coletiva – Eden Espaço de Experimentação – São Paulo – março
2008 59º. Salão de Abril – Centro de Referência do Professor – Fortaleza – outubro
Bienal Tô Cheia – Let’s Xic – Casa da Xiclet – outubro/novembro
Salão de Pequenos Formatos – UNAMA – Pará – abril
36º. Salão de Santo André – Santo André – abril – Prêmio Estímulo
Coletiva Inauguração Espaço EDEN – Prata da Casa – São Paulo – março
2007 Salão dos Novos -Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew – Joinville
Dezembro/março 2008
Exposição Prêmio da XXI Mostra de Arte em benefício da Casa de Apoio
Instituto Britânico – setembro
32º. SARP – Salão de Ribeirão Preto – MARP – agosto
Coletiva B_arco – junho
2006 38º. Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba – outubro
MARP Seletiva de Ribeirão Preto – outubro
Paralela SP ARTE “Seja Marginal”, Casa da Xiclet
10a. Bienal de Santos
“Feliz Aniversário Nelson Lerner”, Casa da Xiclet
2005 IV Salão de Artes de Extrema, Prefeitura de Extrema
” Mercusul”, Casa da Xiclet – instalação “todo amigo meu é um anjo”
“Quero Ser Amigo da Lisette 2″, Casa da Xiclet
Grupo 6×8, Galeria Estação São Paulo
Oficina Vírgilio, Oficina Vírgilio
Exposições futuras / Upcoming exhibitions
2009 Individual Museu Victor Meirelles – Florianópolis
Oficinas / Workshops
Uma História Descontínua da Arte
EDEN 343 – Rafael Campos Rocha
Arte como Fotografia
B_arco – Denise Gadelha
Grupo de acompanhamento de processos artísticos
EDEN 343 – Juliana Monachesi , Guy Amado e José Bento
Arte Contemporânea
Tomie Ohtake – Agnaldo Farias
“O Inquietante Kafka”
EDEN 343 – José Bento Ferreira
“Entre ser um e ser mil”
B_arco – Edith Derdyk
Curso de história da arte
Rodrigo Naves
Curso de desenho
MAM – Dudi Maia Rosa
Orientação de carreira (1 ano)
B_arco – Fábio Miguez
Oficina de Pintura (2 anos)
Oficina Vírgilio – Osmar Pinheiro
História da Fotomontagem a Fotografia Tridimensional
Instituto Tomie Ohtake (36 horas) – Márcia Xavier
Redação (04 meses) MAM Higienópolis
Direção e Interpretação para Cinema e Vídeo (06 meses) Instituto Christina Mutarelli
História da Arte (03 meses) SENAC
Decoração de Interiores (06 meses) SENAC
Fotografia Básica e Intermediária (01 ano) FOCUS
Desenho em Pastel (42hs./aula) FAAP
Curso de Desenho (01 ano) Instituto Henfil
Pintura a óleo (01 ano) – Biblioteca Machado de Assis – Moro
Formação / education
Comunicação Social, Universidade Paulista

